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Algarve desloca mão-de-obra da indústria conserveira para o mercado espanhol

29-06-2014 22:47

Algarve desloca mão-de-obra da indústria conserveira para o mercado espanhol

IDÁLIO REVEZ

29/06/2014 - 10:30

Andaluzia abre duas fábricas de conservas de peixe, utilizando operárias portuguesas. Do lado de cá do rio Guadiana, abateram-se os barcos de pesca e ficou um Algarve dependente das ondas turísticas.

As fábricas de conservas começam a ser uma raridade no Algarve

Os incentivos fiscais criados pelo Governo espanhol para relançar economia ainda não levaram as empresas algarvias a mudar a sede. Quem se desloca, na zona raiana de Vila Real de Santo António, são as operárias da antiga indústria conserveira. Nos períodos em que ficam sem trabalho, ganham subsídio de desemprego pago pela Segurança Social portuguesa. Manuela Viegas vive em Monte Gordo, trabalha na Isla Cristina. “Se não fosse a Espanha a oferecer trabalho, morria tudo de fome”, conta, lembrando que só nesta cidade havia mais de duas dezenas de fábricas de conservas, num total de mais de uma centena em toda a região. “Agora restam duas fábricas em Olhão, uma miséria”, lamenta.

Pelas 3h30 da madrugada, Manuela Viegas deixa o apartamento do bairro social SAAL, em Monte Gordo, entra no autocarro que a leva até Isla Cristina. É nesta localidade espanhola, a cerca de duas dezenas de quilómetros – também conhecida pelo turismo de massas –, que se localiza a fábrica de conservas de peixe que dá emprego a mais de 30 mulheres da zona de Vila Real de Santo António. A viragem na vida desta comunidade coincidiu com o período da entrega dos subsídios ao abate dos barcos e o encerramento das fábricas de conservas. De lado de lá do rio, a Andaluzia concorre com o Algarve na venda do sol, do mar e da praia, mas não deixou morrer a pesca e a indústria conserveira.  

As ilhas Cristina e Canela, até há meia dúzia de anos, concentravam as atenções dos grandes operadores e agentes de viagens. O modelo do turismo de massas ali praticado chegou a ser apontado aos empresários algarvios como “exemplo a seguir”, na lógica da venda de férias em pacote, a preços baixos. Chegou a crise, o imobiliário caiu e os aparthotéis ficaram vazios. "A nossa construção tem mais qualidade”, diz o presidente da Associação dos Hotéis e Empreendimentos Turísticos do Algarve (AHETA), Elidérico Viegas, referindo-se ao desequilíbrio entre a oferta e a procura no sector imobiliário e à concorrência entre os dois mercados. No que diz respeito às vantagens de as empresas portuguesas deslocarem as sedes para Espanha, aproveitando a redução do IVA, não vê, para já, grandes vantagens. "O imposto é pago na zona onde é exercida a actividade”, justifica. No entanto, não deixa de acentuar a discrepância que existe nos dois países, em relação ao valor deste imposto. "A Espanha cobra uma taxa única de 8% do IVA no turismo, em Portugal paga-se 6% no alojamento, mas no sector da alimentação e bebidas, que representa cerca de 40% da facturação dos hotéis, paga-se 23% – estamos a competir em condições de desigualdade.”

Exportar turistas
A última fábrica de conservas a laborar em Vila Real de Santo António fechou há 13 anos. “O encarregado, espanhol, convidou-nos para a nova fábrica que abriu na Isla Cristina”, conta Maria Manuela, que não se adaptou às novas condições de trabalho. “Só lá aguentei dois anos e tal, aquilo era uma escravatura – nem sequer podíamos falar umas com as outras, só o que se ouvia era o rádio a cantar espanholadas.” Assim que encontrou alternativa de emprego perto de casa, em Monte Gordo, trocou as conservas pela cozinha de um restaurante. “A minha irmã, coitada, ainda lá anda, não tem outro remédio”, lamenta.

A colega Manuela Viegas manifesta opinião diferente. “O trabalho é duro, é verdade, mas às duas da tarde estamos em casa e o ordenado é mais ou menos.” O recrutamento de pessoal em Portugal é feito de acordo com os ciclos de produção. “Estivemos sete meses sem trabalhar, voltamos há pouco mais de um mês.” O subsídio de desemprego, acrescenta, “foi pago pela Segurança Social portuguesa”. Mas o que seria mesmo bom, diz a operária, de 55 anos, “seria voltar a ter fábricas em Portugal – comecei a trabalhar nisto [na indústria] tinha 14 anos e, para ser franca, confesso que gosto do que faço”.

O presidente da AHETA, embora não conteste a necessidade de diversificar a economia, considera que é no turismo que está a chave para o reequilíbrio das contas públicas. “O Governo ainda não percebeu que o turismo é a principal indústria exportadora, e a única que paga IVA”, critica.

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